terça-feira, 5 de julho de 2011

A Igreja e o Drama de Betesda


Segundo dados do IBGE – instituto brasileiro de geografia e estatística – Podemos ter uma idéia do número de evangélicos no Brasil. Em 1970, a população evangélica girava em torno de 4,8 milhões de fiéis. Em 1980, o tamanho do rebanho evangélico galgou a marca de 7,9 milhões. Em 1991, a igreja já avançava a barreira dos 13,7 milhões. Em 2000, acima de todas as previsões estatísticas, a igreja ultrapassou os 26 milhões de adeptos! Durante a década de 90, a velocidade de crescimento da Igreja Evangélica foi 4 vezes maior que a da população brasileira. Atualmente, giramos ao redor de 20% da população brasileira, ou seja, mais de 30 milhões de almas. A palavra igreja aparece pela primeira vez no evangelho de Mateus capítulo 16, e vem da palavra grega “ekklesia´´, e significa assembleia. Nesse texto Jesus declara que as portas do inferno não poderão prevalecer contra a sua igreja, e o pronome possessivo demonstra nitidamente que a igreja pertence a Jesus. Essa assembleia de pessoas tem a missão de pregar o evangelho, e viver o amor que o seu mestre viveu, pois, ele mesmo disse: “novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos amei a vós, que também vós vos ameis uns aos outros. Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros´´. (MATEUS 13:34-35)
A seta indicadora do cristianismo autêntico é o amor! O amor é a marca da igreja de Cristo, é o leme que conduz em segurança o navio da nossa vida cristã. Mas vemos a igreja de Cristo relutando em não viver esse amor, e por muitas vezes se esquecendo da sua identidade como igreja de Cristo. Na língua hebraica, praticamente não existe distinção entre as palavras amor e misericórdia. Logo, quando Jesus nos fala de amor, está claramente falando de misericórdia. A palavra “Betesda´´ e em hebraico significa “casa de misericórdia”, o tanque era localizado, segundo Flávio Josefo, em Jerusalém, ao norte do Templo, próximo ao mercado das ovelhas. Em escavações nesta região, no ano de 1888, o professor e arqueólogo, Dr. Conrad Schick, achou um grande tanque com cinco pavilhões (degraus), que levavam a uma parte mais baixa, onde havia água. Em uma de suas paredes havia a pintura de um anjo no ato de movimentar as águas. A narrativa do capítulo 5 do evangelho de João, conta que havia junto ao tanque de betesda, uma multidão de enfermos, coxos, paralíticos, e cegos. De tempos em tempos, as águas eram agitadas por um anjo, e a primeira pessoa que entrasse no tanque depois que as águas fossem agitadas, seria curada de qualquer enfermidade. Alguém chamou a atenção de Jesus, um homem que já sofria naquele tanque há 38 anos, sua doença não é especificada, mas fica claro que é uma enfermidade que não permitia que ele andasse. Esse homem segundo a teologia judaica era um amaldiçoado. Muitos judeus criam que as doenças congênitas, eram em conseqüência de algum pecado cometido quando a criança estava no útero.
Lembremo-nos do episódio do capítulo 9 do evangelho de João, Onde os discípulos perguntam a Jesus: mestre, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego? Os discípulos também criam nessa teologia do toma lá dá cá. Logo, esse homem estava condenado a se afastar da sua família, profissão, lazer, e abandonar seu convívio social por completo. Era visto como uma maldição por muitos, e o único lugar, onde essa alma açoitada pelo sofrimento e humilhação poderia buscar abrigo e refúgio, era betesda, a casa da misericórdia! Era lá onde o coração retorcido pela dor, a alma que gemia pela solidão, e os rejeitados pela sociedade, poderiam vislumbrar uma penumbra de esperança. Esse homem não tem nome, nem família, e nem carinho. Esse homem calejado pela vida, se alimentava da esperança que dizia que um dia a sua vida iria mudar. Imagino quantas noites esse homem pegou no sono pensando: amanhã pode ser o meu dia, alguém vai me ajudar a chegar lá, vão se lembrar de mim. Mas a realidade do dia seguinte se levanta diante do homem que tinha um sonho: ser curado! Ele observa como as pessoas não tem misericórdia, como cada um pensa em si mesmo e não conseguem fazer jus ao nome daquele lugar. As pessoas que ali se encontravam, eram tão frias, quanto às águas daquele tanque. A indiferença e a falta de amor reinavam em betesda. Aquele homem se encontra com Jesus e este lhe faz uma pergunta: queres ser curado? Mas a apatia, o egoísmo, e a falta de misericórdia daquele lugar era tamanha, que o homem não consegue expor o seu maior sonho. Antes, vomita toda sua dor dizendo: “Senhor, não tenho ninguém que me ponha no tanque quando a água é agitada; pois, quando eu vou, desce outro antes de mim´´.
Minha intenção não é focar a cura, mas sim, as palavras desse homem que expressa a dor de alguém que esperava misericórdia na casa da misericórdia! A igreja é casa de misericórdia, é casa da graça, casa do amor. Mas o que menos vemos ás vezes nas nossas igrejas é misericórdia, graça, e amor! A bem da verdade, a casa da misericórdia às vezes não tem misericórdia nenhuma, não admite erros nem falhas. Parece que estamos esquecendo que a igreja é um hospital de pecadores. É o lugar onde os “rejeitados e bestializados´´ pela sociedade buscam ajuda, auxílio, e alguém que mostre o que é amor e misericórdia. Temos a cruel mania de amar os que o sistema seletivo e mundano da sociedade autoriza. Vivemos no modus operandi do inferno quando rejeitamos as pessoas que precisam de misericórdia. Como nossas igrejas tratam as pessoas que se desviam? Como os ex-homossexuais e lésbicas são tratados na casa da misericórdia? Como a igreja se comporta diante dos meninos de rua, traficantes, membros de gangs, e pessoas problemáticas da sociedade que estão freqüentando a igreja? Infelizmente muitas das nossas igrejas falham nisso, e terminamos presenciando o “drama de Betesda´´. E quando se dá o drama de betesda? O drama se dá quando na casa da misericórdia não há misericórdia! Será que na nossa igreja estamos vivenciando o drama de betesda? Já paramos para olhar as pessoas da nossa igreja, que estão vivendo o drama de betesda, como Jesus olhou para aquele homem? Temos que fazer uma reflexão profunda sobre nosso comportamento como igreja do Senhor; e que verdadeiramente a nossa igreja local, possa ser de fato a casa da graça, a casa do amor e a casa da misericórdia!
Fonte: Blog do Pr Erick Newman - Reflexão Teológica

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